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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Chove. É dia de Natal.




Chove. É dia de Natal.


Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

© Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

"A CRIANÇA..."


COROA de SONETOS "A CRIANÇA..."


Autores: ARIEH NATSAC, Ró Mar e RAADOMINGOS

 


A criança que fui chora na estrada.

 de Fernando Pessoa


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

*****

"A CRIANÇA..."


I

 "A criança que fui chora na estrada,"
Descolorida por via d' incompreensão,
Por colo, histórias ou contos de fada,
Enfim, por afagos de coração!

Tantos momentos por viver! O senão
Por adiante, o universo de tanto e nada,
Onde não há lugares d' eleição,
Viagem que se prossegue encavacada!

Ah, hoje sinto um pesar de crescer 
De não me ter despedido, do sobrevoo,
Do que ainda poderia ter d' aprender!

Continuo! Pois, o tempo dela acabou,
Foi o pai e a mãe, sem ninguém par' a proteger!
"Deixei-a ali quando vim ser quem sou."

© Ró Mar
 
*

II

"Deixei-a ali quando vim ser quem sou";
Tarde cheguei, partiu, foi-se embora.
Só encontrei a sombra do que lhe restou,
Até o que ficou dissipou-se na hora.

A inocência, a que por ora ainda chora;
Culpa p'lo que cedo nela embrenhou!
Naquela esquina, sem muita demora
A rua fez sina, que sorte lhe calhou!

Até que não foi tão trágico assim!
Houve outros momentos, que acompanhada
Me senti a mais bela flor do jardim!

Entretanto, nas voltas da vida deixada,
Ergo os cacos, construo o meu botequim,
"Mas hoje, vendo que o que sou é nada."

© RAADOMINGOS

*

III

 
"Mas hoje, vendo que o que sou é nada,"
Porque é que tanto construi e amealhei;
Se o que se leva para a outra morada,
É só o que desta vida gozei?

Tarde, já tarde aprendi e agora sei;
Não vale caminhar em outra estrada;
Fosse antes quando nasci e me criei;
Seria diferente a minha passada!

Viveria, a existência seria d' outra forma.
Daria amor, que não soube por onde andou!
Usaria o coração como plataforma.

Se concederem tempo ao corpo que restou,
O homem que em criança agora o transforma;
"Quero ir buscar quem fui onde ficou"!

© RAADOMINGOS

  *

IV 

"Quero ir buscar quem fui onde ficou"
Vestida de cinzento em tom raiado
Trazendo no seu manto o que levou
Lampejo que apagou céu estrelado

Mostrando a virtude que deu flor
Raios de encantamento desbravado
Hossana por se achar o vencedor
De tudo que alcançou e foi criado

Quando em presença estou; de fino oiro
Converte a natureza num tesoiro
Que nem a tirania sublevou…

Salta e pula risonha uma criança
Esquece a tempestade e vê bonança
"Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou"

© ARIEH NATSAC

*

V

"Ah como hei-de encontrá-lo. Quem errou"?
Perdido sem saber qual o caminho
Fruta amarga, semente, desfrutou
Agora vai debicando, mas sozinho

De asa ferida envolta em mistério
Como um livro que não tem e se aguda
Na paisagem p’ra lá do ser etéreo
Que tanta, tanta vida nos desnuda

Nas passadas pisadas ao relento
Que a noite é sombria onde esquento
O corpo que se levanta sem ter nada

Na nevoa lisonjeira que trespassa
Sem ter espada sem haver mordaça
"A vinda tem a regressão errada."

© ARIEH NATSAC

*

VI

"A vida tem a regressão errada"
Já nunca poderei voltar atrás
Sendo aquela criança transviada
Que mantinha por lema, bom rapaz

Era azougado e grande folião
Das horas destemidas sem segundos
Saltava tanto abismo à condição
Percorrendo os lugares mais profundos

Contra as hostilidades de uma vida
Que lhe foi à nascença prometida
Mas que tão depressa aproveitou

Para fazer o prumo da idade
Rumando sem conceito da verdade
"Já não sei de onde vim nem onde estou".

© ARIEH NATSAC

*

VII

 "Já não sei de onde vim nem onde estou,"
Na ausência desmedida espero o sossego
Do meu desassossego, sei que sou
Parte dum tempo de pouco aconchego!

S' ao menos encontrasse o desapego
Ao que já não é, nos meandros do que sou!
No silêncio ensurdecedor a que chego,
A pausa merecida, meu ofego dou!

Ah, era meio caminho par' a claridade
Desta minha existência conturbada,
Por tal escassez de infância e puberdade!
 
E, se soubesse encontrar uma pousada
De bússola pronta, achar-me-ia na idade!
"De o não saber, minha alma está parada."

© Ró Mar 
 
*

VIII

"De o não saber, minha alma está parada."
Perdida no sossego da razão
Que a leva com saudade de ser nada
Solta faz-lhe sangrar seu coração

Caminho no restolho em muita vida
Pássaro procurando o seu raminho
Da mocidade já muito sumida
Que ao longe vai e acena de mansinho

No escuro calendário sem ter folhas
Reserva de atitude de recolhas
São tantas as vontades de voltar

Com sorte do princípio, tanto queria
Tudo e nada não sei perguntaria?
"Se ao menos atingir neste lugar"

© ARIEH NATSAC

*

IX

  “Se ao menos atingir neste lugar”
Serei tanto feliz como criança
E não vou p’ra ninguém localizar
O sintoma que tem a dor da esperança

É um barril de pólvora a pobreza
Que mata lentamente sem receio
Perdendo a confiança de uma mesa
Sendo pobre palavra desse meio

Na barrela dos olhos vejo aceso
O fogo que arde sem um contrapeso
Sem fazer desta vida um tal festim

Onde se roem ossos sem ter carne
Será onde não há quem encarne
“Um alto monte de onde possa enfim”

© ARIEH NATSAC

*

X

 "Um alto monte, de onde possa enfim"
Descansar, olhando o céu por horizonte,
Que me é íntimo! Sentir-me-ei querubim
A renascer das raízes em pura fonte!

Lá do alto, olharei por todos aqueles,
Que como eu ficaram, enquanto crianças,
A olhar estrelas! O que é feito deles?
Será que ainda vivem nas esperanças?

Os que jogavam ao balão na praça
Eram amigos á séria e é de recordar
O pé descalço e a mão numa carcaça! 

Ah, hoje o meu destino fez-me parar
E ver aquele tempo de (des)graça!
"O que esqueci, olhando-o, relembrar"!

© Ró Mar 

*

XI

"O que esqueci, olhando-o, relembrar,"
O bocado da serra manto frio
Perdi naquele tempo meu olhar
Na delícia presente, desvario

E a pobre gente avança sem ter medo
Como se uma criança fosse ao tempo
Na imensidão joga com segredo
Que brota do seu corpo sem lamento

Esta pequena figura é um homem
Que brota desta terra feita mãe
Que ensinando sem livros sendo assim

Rasgando-lhe a pele abrindo a dor
Com palmos a crescer o seu valor
"Na ausência, ao menos, saberei de mim"

© ARIEH NATSAC

*
 
XII

"Na ausência, ao menos, saberei de mim,"
Astrolábio dos meus sentidos mediando,
Tal Pessoa, altura mediana; meu latim,
Que nem eu compreendo, vou arquitetando!

Poucas filosofias, que a vida é barata
E as letras saem-me caras; ainda lembro
D' escrever umas palavras em cascata
Na lousa carcomida, não era dezembro!

Ah, hoje é tudo fino e eu desatino!
Não que não tenha tino, mas, se vou julgar
O que sou não envergonho o menino...

Do qual estou equidistante a procurar
P'lo verbo qu' abrilhante o destino;
"E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar."

© Ró Mar

*

XIII

"E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar"
Tudo o que vale a pena em toda a criança,
Que tal como eu não pôde celebrar;
Quiçá, mudar de pensar, autoconfiança!
 
    Ah, que tolice! Eu, a pensar em mudar
Toda aquela existência, análoga à minha,
Num tempo que me foge! Teimo em viajar
E encontrar o melhor de mim na estrelinha!

E, enquanto a comtemplo sinto, o paraíso!
Quaisquer cousa, nem sei bem o quê? Enfim,
A idade é minha e eu menino de juízo!

Parece amanhecer, cheirinho a alecrim,
Outro dia a inaugurar o sorriso
 "Em mim, um pouco de quando era assim."

© Ró Mar 

*

XIV

"Em mim um pouco de quando era assim"
Deixando tanta e impressa a saudade;
Na zoada que o vento faz, enfim;
Escuto o frescor da ida mocidade.

Pudesse encontrar-me - Piedade!
Oh vida, que subiria outro patim!
A criança some-se com a idade;
A percepção que chega é a do fim!

Em registo desbotado dum desenho;
Ecos áureos da verde gargalhada,
P'las nesgas frestas julgo qu' a detenho!

Agora que a reclamo não encontro nada;
As lágrimas pela face não as contenho,
"A criança que fui chora na estrada."

© RAADOMINGOS
 
*

COROA de SONETOS "A CRIANÇA..."

Autores: ARIEH NATSAC, Ró Mar e RAADOMINGOS

*

Sonetos do Universo | 2021

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL




II – O meu olhar é nítido como um girassol


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…

 © Alberto Caeiro [Heterónimo de Fernando Pessoa]

“O Guardador de Rebanhos” | “Poemas de Alberto Caeiro”

segunda-feira, 13 de junho de 2016

SANTO ANTÓNIO




FERNANDO PESSOA – 13 de JUNHO


Fernando António Nogueira Pessoa 
Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935


SANTO ANTÓNIO


Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.
Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

© Fernando Pessoa

EU SOU DO TAMANHO DO QUE VEJO




I - Eu sou do tamanho do que vejo


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Fernando Pessoa [Alberto Caeiro], 
"O Guardador de Rebanhos"