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domingo, 21 de junho de 2020

A VONTADE DO CORAÇÃO



“Glosando Almada Negreiros”

MOTE - “TODA A NOSSA FELICIDADE
ADQUIRIDA PELA NOSSA CABEÇA
DEPENDE DO NOSSO CORAÇÃO.
UM HOMEM NUNCA É O QUE QUER
MAS O QUE QUER SER SEU CORAÇÃO."

Almada Negreiros

*

A VONTADE DO CORAÇÃO 


A maior aventura do mundo
Que todo o ser humano engendra,
E que parece não ter emenda,
É a que nasce lá bem no fundo
E que faz com propriedade
Sonhar ter, como oferenda,
Toda a nossa felicidade.

Prémio justo e compensador,
Por tudo quanto custa viver
Durante a vida que se tiver,
E não há alternativa ao redor
Que a todo o humano engrandeça,
Do que a vontade que se requer
Adquirida pela nossa cabeça.

Esta energia vital tremenda
Emergente das profundezas
É uma das maiores riquezas
Que a própria razão recomenda
E, pela vontade da emoção –
Como catarse para as certezas –
Depende do nosso coração.

Há corações largos e estreitos
E corações coesos e partidos
Aos quatro ventos dos sentidos
Mas nenhuns deles perfeitos.
E, quer em homem ou mulher,
Pelos meandros consentidos
Um homem nunca é o que quer.

Toda a vontade e solicitude,
Vinda de dentro do ser humano
Sem subterfúgio ou desengano,
É luz segura e é uma virtude
Que, sendo de si feliz condição,
Não tolera um cariz soberano
Mas o que quer ser seu coração!

© Frassino Machado

In OS FILHOS DA ESPERANÇA

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

RESPIRO ESPERANÇA, FÉ, ALEGRIA




ESTA, MINHA, JANELA


Acordei cedo e logo percebi
Que o dia brilhava mais do que podia!
Quiçá, a serenidade de um chá a poesia
Ou esta, minha, janela rendilhada que anotei!

Que airoso adamascado planeia pela minha alma!
Lembra os Reis magos e é mesmo outro dia
Que traz certa esperança, fé, alegria
Ao meu coração e inspira a certa calma.

A mística e singela magnitude deste universo
Sacode o meu olho e deixo cair um verso;
Qual parte em direção a Belém: terra abençoada
Pelo Deus menino que nasceu à hora de consoada.

©  Ró Mar




RESPIRO ESPERANÇA, FÉ, ALEGRIA


Sigo a estrela que brilha em mim e caminho
Ao encontro da minha paz repleta de fé
Em poder ver o menino Jesus ao lado Maria e José
Deitado sob as palhinhas sagradas de um pergaminho.

Longa viagem que me permite estar perto dos céus;
A claridade que me envolve é dádiva de Deus;
Assim, percebo o significado do nascimento e o valor do amor
Legado pelos Reis magos: Gaspar, Baltasar e Belchior.

Não trago incenso, nem mirra, muito menos ouro,
Mas, trago o coração aberto para receber o espírito santo;
É a maior cousa que posso ofertar perante tamanho tesouro.

A brancura e leveza deste momento
Invade a minha alma e deixo cair um verso:
Nasceu o salvador reina a paz pelo universo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

OS REIS MAGOS



 

Os Reis Magos


Diz a Sagrada Escritura
Que, quando Jesus nasceu,
No céu, fulgurante e pura,
Uma estrela apareceu.

Estrela nova … Brilhava
Mais do que as outras; porém
Caminhava, caminhava
Para os lados de Belém.

Avistando-a, os três Reis Magos
Disseram: “Nasceu Jesus!”
Olharam-na com afagos,
Seguiram a sua luz.

E foram andando, andando,
Dia e noite a caminhar;
Viam a estrela brilhando,
sempre o caminho a indicar.

Ora, dos três caminhantes,
Dois eram brancos: o sol
Não lhes tisnara os semblantes
Tão claros como o arrebol

Era o terceiro somente
Escuro de fazer dó …
Os outros iam na frente;
Ele ia afastado e só.

Nascera assim negro, e tinha
A cor da noite na tez :
Por isso tão triste vinha …
Era o mais feio dos três !

Andaram. E, um belo dia,
Da jornada o fim chegou;
E, sobre uma estrebaria,
A estrela errante parou.

E os Magos viram que, ao fundo
Do presépio, vendo-os vir,
O Salvador deste mundo
Estava, lindo, a sorrir

Ajoelharam-se, rezaram
Humildes, postos no chão;
E ao Deus-Menino beijaram
A alava e pequenina mão.

E Jesus os contemplava
A todos com o mesmo amor,
Porque, olhando-os, não olhava
A diferença da cor …

© OLAVO BILAC

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

SOBRAS NATALÍCIAS




SOBRAS NATALÍCIAS  


Quando se pensa no Natal
Logo se imagina a fartura
Numa abundância colossal
Que mete respeito e figura.

Quanto mais pessoas melhor
Cada um mostra o que vale
Importa qu´ se exija valor
Quando se pensa no Natal.

Haja prendas e mais alimento
Com um Pai Natal d´ aventura
Para lá do contentamento
Logo se imagina a fartura.

Com embrulhos e mais embrulhos,
E com ataduras bem ou mal,
Há mais ilusão do qu´ orgulhos
Numa abundância colossal.

- Quero uma coisa que m´ agrade –
Ouve-se a voz duma criatura –
É uma prenda de qualidade
Que mete respeito e figura.

- Neste Natal só me sai duques
E o meu Pai Natal é uma seca,
Já estou farto dos seus truques
E eu vou dormir uma soneca.

- Quando acordo só vejo sobras
Em caixas, caixinhas e sacolas,
Nada de jeito para as dobras
E o “Pai Natal” é um gabarolas!

- Oh, tanta gente a passar fome!
Se as sobras pudessem chegar
A todos, sem olhar ao nome,
Este mundo poderia mudar…

Lembrei-me agora, de repente,
Do poema NATAL DE QUEM
Que amigo poeta-competente
Compôs certo dia muito bem.

Trata duma família moderna,
Sem nenhuma crença nem luz,
Que o Pai Natal trazia à perna
Em vez do Menino Jesus:

Frassino Machado
In JANELAS DA ALMA


*

NATAL DE QUEM?  


Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.
-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
-- Está bem, eu sei!
-- E as garrafas de vinho?
-- Já vão a caminho!
-- Oh mãe, estou p’ ra ver
Que prendas, vou ter.
-- Que prendas terei?
-- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
-- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
-- Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papéis
Sem regras nem leis.

E Cristo Menino
A fazer beicinho:
-- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar

E o Menino, quase a chorar:

-- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
Foi este o Natal de Jesus?!

© João Coelho dos Santos
In “Lágrima do Mar”, 1996

QUANDO UM HOMEM QUISER




Quando um Homem Quiser


Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

© Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'

sábado, 21 de dezembro de 2019

PRESÉPIO VIVO




PRESÉPIO VIVO


Em tempo antigo
O presépio era vivo
José e Maria se reflectia
Nas pessoas da avó e do avô 
Em volta seus netos e filhos
A família uma só.
Havia um rebanho 
Um pastor e um estábulo
Na loja o burrinho
Na pocilga o boi 
Era substituído pelo porquinho.
Amassavam-se as filhoses 
Para alegria dos mais pequeninos
Cantava-se à volta da fogueira
Ao Deus menino tão pequenino.
Tenho estas memórias guardadas
Lembrança e quanta saudade
Cada pessoa é lembrada
No presépio da humanidade.
Saudades de tanto empenho…
Do avô e da avó, dos pais que já não tenho,
Tanto mistério neste presépio humano, 
A saudade engole a gente.
A luz do presépio era fraca 
Mas estava sempre presente
A candeia era alimentada com azeite.
A casa era humilde, não muito importante,
Mas suficiente 
Para o nosso aconchego.
A lembrança da nossa fé
E da nossa inocência
Vinha com a presença
Do divino infante.
A simplicidade daquele presépio humano,
Tinha enfeite irrelevante
Transmitia paz e alegria
Na sua essência, no meio do alarido
Da presença das tias e tio.
Na ceia, não faltavam as filhoses
O pão e vinho e o sorriso abundante
Esperando as doze badaladas
Para celebrar o nascimento
Do divino infante
Reflectia sobre estes engodos,
Tanta alegria, nos unia,
Jesus nascia para todos.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O PERÚ DE NATAL


Imagem: November Turkey Quilt Block Pattern


O PERÚ DE NATAL 


A loja do Manuel era simples e mágica como todas as mercearias das aldeias pequenas. Tinha uns armários de carvalho que cobriam as paredes quase até ao tecto, algumas prateleiras eram protegidas por vidros, mas a maioria expunha simplesmente os produtos ao olhar dos fregueses: farinhas, latas de atum ou sardinhas em azeite, fósforos, umas garrafas de vinho do Porto, uns licores, brandes e aguardentes finas.
...
Sobre o enorme balcão de madeira, a balança de pratos era a figura central – por ali passava quase tudo. Ao lado estavam os pesos de metal. Parecia uma família, uns maiores que eram os pais, e depois a criançada dos pesos pequenos e pequeninos. E esta família tinha uma casa, uma caixinha com os redondos exactos em que cada peso se incrustava, mas o Manuel não tinha tempo para essas coisas e ficavam desarrumados no balcão, ao lado das caixas dos rebuçados de mel, como se as crianças estivessem no recreio e os pais a vigiar. 
- Ó senhor Manuel, avie-me lá um quarto de açúcar amarelo, por favor…
Abria a tampa de madeira da tulha, enchia um cartuxo de papel pardo que depois batia em cima da pedra mármore do balcão para o açúcar assentar. Colocava-o na balança e com uma corredora de alumínio, deitava ou retirava mais uma ou duas pitadas de açúcar loiro para acertar o peso. Depois dobrava as pontas do cartucho deixando umas orelhas atrevidas, e colocava-o no balcão com um sorriso adocicado como o cheiro que ficava no ar. 
- Aqui tem D. Bárbara, precisa mais alguma coisa?... o senhor Arménio como vai? – dizia ele subindo para o estrado de madeira, o que lhe dava um ar mais distinto ao balcão.
- Vai bem, obrigada! Aponte lá no livro, por favor, já cá passo no final do mês!
O Manuel apontava. Era freguesa de confiança, gente séria, o marido era feitor de uns senhores de posses, no acabar do mês sabia que ela trazia as moedas contadas para desarriscar o nome.
...
“Ó sô’ Manuel, assente lá, que o patrão logo passa cá a pagar”, dizia ela. Só que o patrão não passava e os números aumentavam no livrinho preto, quadriculado, onde o Manuel fazia as contas de somar. 
- Ó home’ vai lá bater-lhes à porta… é Natal, devem ter dinheiro! 
- Ó mulher, vou agora bater às portas do doutor… ainda se amofinha co’a gente! E se depois precisamos do home’ numa aflição, e ele está derrancado com a gente…?
- Numa aflição está a gente agora, temos o Natal a chegar e nós sem dinheiro… Vai lá a bater à porta, que pedir o que é nosso não é vergonha! Era só o que faltava! Ele a alambazar-se na consoada e nós aqui a chuchar no dedo… e com os fornecedores á perna! 
Contrariado, mas bem-mandado, Manuel lá se foi ladeira acima com o intuito de pedir satisfações ao médico. 
...
Pressentiu uma mesa farta e isso deu-lhe ânimos para agarrar no batente da porta – um punho de metal – e sacudir as madeiras com violência. Foi o próprio médico que veio abrir:
- Ó Manuel, tu por aqui? Entra lá homem, entra que está frio. Então o que te traz por cá? És tu que andas mal? Ou é a tua patroa?
Ele tirou o boné, revoluteou-o entre os dedos nervosamente. Nem sabia por onde começar. Foi olhando a mesa posta, vendo as filhós, as rabanadas, os pudins. A batata assada que estava a ser servida, o esparregado, o peru acabado de sair do forno e que a mulher colocava na mesa dentro de uma travessa de loiça. O cheiro quente chegou-lhe ao nariz e desatou-lhe a boca.
- Não se trata de maleitas, senhor doutor. Como lhe hei-de dizer… O doutor não levará a mal, mas é que tem lá uma conta já grandita na minha mercearia e… Estou aqui por mor de levar algum pagamento que as coisas lá em casa estão apertadas de dinheiros… sabe como é!
- Ó Manuel, claro que sei, homem! Se eu te contasse também a minha vida…! Nem imaginas. É como a ti, ninguém me paga, sabes como é… Olha que eu também tenho o meu livrinhos dos apontes. 
Manuel sentia que lhe estava a fugir o chão dos pés. Ainda tentou um último argumento: 
- Compreendo! Compreendo! E desculpe, ter batido na sua porta. Mas é que eu estou mesmo de bolsos revirados. Pelo menos o doutor ainda tem a mesa farta, e um bom peru assado…
Ao que logo o médico respondeu: 
- O peru? Ah, o peru! É o que te digo Manuel… se eu te contasse a minha vida. Sabes lá!!… O peru, vou-te confessar… - e chegou-se junto a ele, baixando a voz em tom de confidencialidade. – O peru, eu não queria, mas tive de o matar. Sabes porquê? É que já não tinha nada que lhe dar de comer, coitado!!!

© João Morgado, in MEIO-RICO E OUTROS CONTOS (Kreamus, 2011)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

UM NATAL TODOS OS DIAS


Imagem: Mala d'estórias


UM NATAL TODOS OS DIAS


Quem faz o Natal para todos nós?
São os amigos
Quem nos dá prazer e dá calor?
São os amigos
A quem é que damos a ternura?
É aos amigos
A quem é que damos o melhor?
É aos amigos

Os amigos são o nosso bolo de Natal
Cada amigo nosso vale mais que um Pai Natal
É um irmão nosso que trabalha no Natal
E com suas mãos faz a diferença do Natal
O dinheiro pouco importa
O que importa é a verdade
E a prenda mais valiosa
É a prenda da amizade
Quem faz das tristezas forças
E das forças alegrias
Constrói à força de Amor
Um Natal todos os dias.

© Ary dos Santos e Joaquim Pessoa

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

TEMPO DE MEMÓRIAS




TEMPO DE MEMÓRIAS


Lembro-me desse tempo em que os olhos brilhavam de feliz contemplação. Participar envolvido no momento, era uma guloseima que se sorvia até à mais pequena partícula de sabor.
«-Este ano ficas encarregue de encontrar um pinheiro.»
Esta fora a incumbência que fizera insuflar de importância o meu peito franzino, na vivacidade dos apressados dez anos.
Não era pela dificuldade da tarefa, para quem vivia rodeado de montes vestidos de vegetação em alegre convívio com a Natureza. Era imperativo sim, encontrar um exemplar, que pela forma e dimensão estivesse à altura das circunstâncias.
Tarefa concluída, a missão seguinte era encontrar musgo vistoso e bem atapeado. Conhecia os locais certos onde crescia mais vigoroso, por entre a folhagem, ao abrigo das copas dos sobreiros.
Pensava para comigo, que se queremos trazer a Natureza para dentro de casa, devemos procurar retratá-la com a maior fidelidade possível.
E colocava os tufos verdes rectangulares, em camadas numa cesta, que transportava alegremente de regresso a casa.
Chegara finalmente o aguardado momento de dar forma ao presépio.
Fixava-se o pinheiro a uma base sólida, que se disfarçava com o musgo. Este servia também para ornamentar o estábulo improvisado em madeira, e o seu telhado côncavo feito de cortiça.
A forma parcimoniosa como se dependuravam nos verdes ramos as bolas vermelhas, verdes e azuis, fazia parte de um cuidado ritual por diversas vezes contemplado, até ser aprovado pelo olhar.
Um enfeite dourado envolvia o pinheiro em fraternais e circulares abraços, encimado pela estrela guia prateada.
Dentro de uma caixinha, guardados do ano anterior, estavam os impacientes personagens que ansiavam por dar mais vida ao presépio.
O Menino nas palhinhas em sua manjedoura, os protectores Maria e José, a pacífica vaquinha, o humilde burrinho e as obedientes ovelhinhas. Os três reis magos completavam o rol dos participantes na Boa Nova.
E decorriam ansiosos dias até à véspera de Natal.
Jantar da consoada em família. 
Os sapatinhos já colocados estrategicamente no canto da chaminé. Era imperativo deitar cedo para cair nas boas graças daquele simpático velhinho de compridas barbas brancas.
Era uma noite de escasso sono, em que os pensamentos assaltavam a mente em turbilhão, ansiando a chegada do despontar do desejado dia.
No escuro do quarto, a mente vigilante permanecia atenta a qualquer ruído que pudesse ser perceptível.
Ainda faltaria muito para que a nossa casa fosse contemplada com uma visita?
Com que poderes especiais o Pai Natal desceria pela chaminé com o seu saco, e deixaria o testemunho da sua passagem sob a forma de um presente?
Será que tinha visto os sapatinhos e estaria agora a pendurar na árvore um sino, um coelhinho, ou a sua figura em forma de chocolate?
Pensava já na forma cuidada como iria desembrulhar os que me caberiam em sorte, alisando bem a prata que seria colocada no interior de um livro para não se danificar.
Mal teria conciliado o sono, quando acordei com um ligeiro ruído vindo da cozinha. O inconfundível aroma a café já se fazia sentir no ar.
Levantei-me da cama de um salto!
«-A sua bênção meu pai! A sua bênção minha mãe!»
E precipitava-me em direcção à chaminé…

Tão simples pode ser a matéria com que ornamentamos os sonhos.

© Antero Jerónimo

sábado, 14 de dezembro de 2019

NATAL DOS SEM ABRIGO


Foto © Ró Mar

NATAL DOS SEM ABRIGO


Há uma estrela no céu, especial
Que alumia a desgraça e a pobreza
Com o crepúsculo se refaz a natureza
Com os anjos se celebra o Natal.

Dos ricos eu não falo, não merecem
Têm tudo, não lhes falta nada
Aos pobres dedico o sol da alvorada
E a ternura onde se aquecem.

Os velhacos merecem castigo
Os maus merecem degredo
Da vingança eu só tenho medo
Apenas me afago com quem é amigo.

Livrai-nos da luxúria e do mal
Das doenças más e do perigo
Dai amor infinito aos sem abrigo
Cobrindo-os de calor este Natal.

NOITE DE NATAL!...




Noite de Natal!...


O Natal é alegria
É noite de luz a brilhar
Natal com a Virgem Maria
E o Menino Jesus a beijar

Mas, Natal é noite santa
Para nós sempre louvado
O Menino Jesus encanta
Numas palhinhas deitado

Natal é prendas e luz
Nos corações há alegria
Ver o Menino Jesus
Ao colo da Virgem Maria

Para todos os povos também
Eu te peço sim em oração
Nesta noite santa sem igual
Que não deixes ninguém
Sem agasalho nem pão
Nesta linda Noite de Natal!

© Maria de Lurdes Cunha

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

HISTÓRIA DO MENINO JESUS


Foto: © Acácio Costa

História do menino Jesus


Era uma vez um menino
Que nasceu em Belém
Seu pai era José
Maria a sua mãe.

Viveu junto de seus pais,
Perto do rio Jordão,
Um dia saiu de casa,
Foi ver seu primo João.

Reuniu doze bons homens
Para o seguirem nas pregações.
Pregou a palavra de Deus, fez milagres,
Encheu de esperança muitos corações.

Revelou ser Filho de Deus
E que amar é sobretudo perdoar;
Pai nosso que estás no céu (…)
Ele ensinou a rezar.

Até que um dia, foi traído,
Após uma última-ceia;
Foi julgado e condenado
Como impostor da Galileia.

Entre dois ladrões, foi crucificado
E como malfeitor foi tratado;
Ficaram Madalena, Maria e João
Por quem não foi abandonado.

Depois de morto, foi sepultado
- Era o “Messias” que acabou;
Mas, como tinha anunciado,
Ao terceiro dia, ressuscitou.

Fundou, em Pedro, a sua Igreja,
Crentes-católicos-cristãos;
Deixou Maria como mãe,
Pra que todos fossem irmãos. 

Esta a história de Jesus Cristo,
Que disse e a vós todos eu lembrei:
“Amai-vos uns aos outros
Como eu vos (amo e) amei”!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O NATAL É SÓ O MÊS DE DEZEMBRO


Imagem - Bellissime Immagini

O NATAL É SÓ O MÊS DE DEZEMBRO


Dezembro chegou e a azáfama do natal
Percorre as ruas e carrega o lindo pinheiro ou abeto,
Para dar um novo respirar aos lares…
Verdinho, com bolas de todos os feitios, fitas de muitas cores
E também nódulos de algodão, brancos demais,
Enche o coração das casas e os olhos das crianças.
E, claro está, o presépio, o berço de palhinhas assente
Em musgo para receber o menino
Jesus que nasce em Belém…
Ao lado de virgem Maria e de José.
Lá no cimo da árvore a estrela a brilhar
Para Belchior, Baltasar e Gaspar, os três Reis magos,
Que carregam ouro, incenso e mirra para adorar o menino.
As crianças têm um sorriso frenético e curiosidade demais.
É a quadra mais mística e aliciante do ano.
Há prendinhas embrulhadas em papéis coloridos
Para dar alegria ao presépio, (simbolicamente)
Para ofertar ao menino Jesus que, nasce em Belém,
Vai a casa de todos os meninos.
Vem no ventre da virgem Maria em véspera de natal
Para dar luz à ceia de natal
E alumiar os corações de todos.
Há missa do galo e ao sino das doze badaladas
Ouve-se a boa-nova: Jesus nasceu, o salvador!
Lá vêm as renas, é o trenó do pai de natal!
Já se vê o fuzuê que vai à volta da chaminé...
São os meninos que vão ver o sapatinho.
Já nasceu o menino Jesus, a alegria perpétua a noite, é natal.
Desembrulham-se as prendas e trocam-se abraços e carinho.
A algazarra instala-se no seio da família, o vozeirão das crianças,
Que não têm pressa de dormir querem mais é brincar.
E, o natal fica até mais tarde, vai enfeitando o resto do mês
Com muita brincadeira e guloseimas,
Em especial o bolo-rei que é dos três
Reis magos e vai de novo às mesas com fava e presente
Para festejar o dia de Reis, que deixa saudades em todos os lares.
Chega a hora de arrumar a casa e lá se vai o pinheiro
E as bolas de natal
Arrumam-se para o ano que vem.
Há tristeza nos olhares das crianças…
As casas já não são as mesmas,
A família não é a mesma, os amigos não são os mesmos.
Tudo é diferente, os brinquedos são os mesmos
E a rotina volta ao dia a dia por mais um ano.
O verde fica estampado no olhar das crianças…
Um novo ano em que é preciso que se portem muito bem
Para ter novos brinquedos no ano que vem.
Os corações ficam mais pequeninos e o inverno vem pela frente,
Sente-se o frio em muitos lares,
Onde o amor não reina simplesmente;
Há outros que os aquecem o ano todo em trocas de coração aberto.
Mas por norma, o natal é só o mês de dezembro 
E o nascimento do menino Jesus é (o salvador), 
Mesmo só, a vinte cinco de dezembro.

sábado, 28 de setembro de 2019

ROTA DOS (A)FETOS



Abraçar o outono na Rota dos Fetos é tranquilizador.

Rota dos (a)Fetos


Entrar na paisagem, no desassossego da encantadora imagem
Da natureza vestida de ameno inverno 
E sentir na estaladiça folhagem, a música extasiante, infinita 
Enquanto as árvores se desnudam de preconceitos 
Sensualidade destapada de traços perfeitos 
Onde pinheiros altaneiros de folhas elegantes 
Espargem a luz nos lábios das acácias 
Na “Rota dos Fetos” sinais de passagem de afetos 
De mãos dadas, de abraços discretos 
Ao som do canto do rouxinol invisível e irrequieto 
Da melodia do rio Pavia de água pouca 
Pétalas de neve de malmequeres nadam nas águas cristalinas 
Plátanos de corpo liso e perfeito alindam-se no espelho do leito
E, dos medronheiros caem lágrimas de sangue, incolores com sabores 
Nos tapetes de musgo, onde dormem fadas e duendes imaginários 
“ Mundão “ pedaço de terra e beleza de enleios e ideários 
Imbuídos em plena natureza nesta bucólica imagem 
Um tumulto de sonhos abre horizontes
E no bailado estonteante das borboletas coloridas apetece voar 
Caminhar nas margens, enfrentar o vento ardente, derrubar muros, construir pontes.

© Isilda Monteiro 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

MEU SONHO DE NATAL...


Imagem: Mensagens de Natal


Meu sonho de Natal…


Há uma luz a te iluminar
Que vem desde o além
É Natal é preciso amar
Nosso irmão como convém

Que essa luz sempre irradie
Dentro do teu nobre coração
Mesmo que alguém te arrelie
Dá-lhe de ti toda a paixão

Vive na luz da esperança
Lembra-te de todos os teus
Dum momento de criança
Nunca lhe ponhas os véus

Gosto de ver tua luz cintilar
Nesse teu ego a defender
Faz sempre por a luz amar
Que alguém colherá prazer

O tempo corre velozmente
E tua luz se virá a apagar
Por isso tu vive contente
Não há nada como o amar!

© Armindo Loureiro 

EPIFANIA DA ESPERANÇA



EPIFANIA DA ESPERANÇA  


«Natal de 2018»


A Esperança nasce e cresce no coração da criança
Mas isso não o entende o pobre mundo social
Pois que dentro de si não mora aquela confiança
Que lhe possa garantir a revelação do Natal…

O mundo desconhece o poder da Epifania
Porque vive nas trevas de outros poderes banais
Daí a perversão da nefasta desarmonia
Que o levará à vil pobreza e às guerras fatais.

O mundo encontra-se na travessia de um deserto,
Sem perspectivas e valores para se afirmar,
Só miragens e falsas ilusões a descoberto
E um vazio de Luz que o motive pro despertar.

Acorda Mundo, para a Epifania da Esperança
E descobre a Criança que dentro de ti lateja.
Chama-lhe o que quiseres: ela é a tua confiança,
Ela é o Sonho e a Luz que o teu coração deseja!

Frassino Machado
ODISSEIA DA ALMA

FELIZ NATAL



FELIZ NATAL


Estas duas palavras pequenas,
De cinco letras as duas apenas,
São grandes, abraçam o Mundo,
Dizem mais q’um simples mudo.

São palavras que muito dizem,
E que devem ser interpretadas
Como de paixão e do coração,
Que não se guardam e se dão.

Feliz Natal é sempre o desejado
Por quem tão bem intencionado,
Quer viver em paz e harmonia,
Com os amigos em companhia.

Chegou o momento de darmos 
As mãos para estarmos unidos
Em torno dos mesmos ideais,
Não são gestos apenas banais.

O tempo urge, amanhã é tarde,
Festejar a Paz e o Natal, hoje,
Entre toda a humanidade viva,
Para não se sentir tão perdida.

© Ruy Serrano 

ANO VELHO, ANO NOVO




ANO VELHO, ANO NOVO  


“Trovas de Fim de Ano”


Quero estas trovas cantar
Frente a frente co´ o espelho
Pela saída do ano velho
Que ´stá prestes a acabar.

Durou tanto o velho ano
Por nunca encontrar renovo,
Vinho velho, vinho novo
Corra hoje no mesmo cano. 

Nem tudo foi de primor,
Doze meses ao desafio,
A água que corre no rio
Foi indo de mal a pior. 

Já não abundam esperanças
Pois qu´ anda tudo às avessas
O que é novo não tem pressas
Seja em adultos ou crianças.

Não se vê rosto a sorrir
Nem há bocas para cantar 
Vê-se gente a andarilhar 
De mão estendida a carpir. 

Os ricos, sempre mais ricos
Com dinheiro pra derreter
A justiça, não dá para ver,
E as leis disfarçam fanicos. 

Os pobres, sempre mais pobres
E a cada hora muitos mais,
Não há governos nem arrais
Sem haver princípios nobres. 

Os pais confundem os filhos
Pelo exemplo que lhes dão, 
Os filhos estão como estão
E não passam d´ empecilhos.

A Escola não tem remédio já, 
Sem bom professor nem mestre
Não há ensino que preste
Nem esperanças no amanhã.

Se há emprego é com´ aspirina,
E os patrões já são de sobra, 
Não há investimento nem obra
Mas há negócios da China. 

A terra ninguém a trabalha
Quem o faz já é sortilégio, 
Ter dinheiro é um privilégio
Quanto a sorte, Deus-nos-valha.

O senhor prior é o que se vê
De mão estendida pra esmola
Enquanto o povo s´ esfola
Ele, em casa, consome a Tv.

Já nem percebe de missa
E já esqueceu o breviário,
Como padre anda ao contrário
Trabalha pouco e tem preguiça.

Dá-se bem co´ o regedor
E tem-no em suas palminhas
O povo que vá prás alminhas
E dê graças ao Senhor. 

A Fé não há quem a tenha,
Dentro da igreja ou capela,
Ninguém tem urgência dela
Nem há mal que daí venha.

A aldeia é um ar que lhe deu
Co´ os fiscais sempre na ordem
Mas, porém, pouco já podem
E, se o podem, “dá cá o meu”.

Há projectos pantomineiros
Em hipermercado ou em feira, 
Há pedintes sem eira nem beira
E há oportunos arruaceiros.

Nunca há culpa nas desgraças
E quase não há segurança
Ninguém entende tal dança
E as razões destas devassas. 

Há pulhices nos tribunais,
Ministros brincam co´ a tropa,
Sem-abrigos comem da sopa
Que faz inveja aos pardais. 

Há lições no Parlamento
Com sessões mirabolantes,
Não há moral como dantes
E o Poder é um cata-vento. 

Em Belém mora o afecto,
Moram selfies e sorrisos,
Entre infernos e paraísos
Vai gozando quem é esperto.

O Zé odeia qu´ o tomem
Co´ ilusões e fantasias,
Mas usa as tecnologias
Para provar que é homem. 

Ninguém pode cair doente
Toda a gente finge saúde,
Há mais farra do que virtude
E ao futuro ninguém o sente. 

Ano velho ou Ano Novo
Aconteça o qu´ acontecer
A Sorte é o que Deus quiser
O resto sobra para o Povo.

Diz o povo e tem razão
"Ano Novo, vida nova",
Mas é urgente pôr à prova
A força do coração.

Estas Trovas são o que são,
Com teatro e com ironia,
Vestem a roupa da Poesia
No que é real ou ficção! 

Frassino Machado

TROVAS DO QUOTIDIANO