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terça-feira, 21 de março de 2023

QUADRAS | SANTOS POPULARES




DESAFIO POÉTICO: "JUNHO | QUADRAS POPULARES"





FORÇA DA TRADIÇÃO


Santo António, és o primeiro
Dos três santos populares
És o santo casamenteiro
Que alegra os nossos lares

Tens tal fama no teu dia
Que toda a bela cachopa
Só pensa com alegria
Em queimar uma alcachofra

Santo António, Santo António
Dá me um arco e um balão
Santo António, Santo António
Vem prender meu coração

Santo António, Santo António
Vem saltar uma fogueira
Santo António, Santo António
Vem brincar a noite inteira

Rapazes e raparigas
Dancem e cantem sem parar
As vossas belas cantigas
Para toda a gente alegrar

Cada marcha que aqui passa
É um bairro e um pregão
Que enfeita e dá graça
E mais força à tradição

Santo António, Santo António
Dá-me um arco e um balão
Santo António, Santo António
Vem prender meu coração

Santo António, Santo António
Vem saltar uma fogueira
Santo António, Santo António
Vem brincar a noite inteira

Esta Lisboa velhinha
Que de ti se enamorou
Fizeste dela a rainha
Que o povo acarinhou

Vosso par ficou eterno
E durante o mês de Junho
Renasce um amor mais terno
Nessas noites como um sonho

© ARIEH NATSAC




AOS SANTOS POPULARES



Chegado o mês de Junho
Há alegria nos olhares
E quadras que rascunho
Aos Santos populares.

Nas ruas há animação
E não faltam manjericos
P'ra entoar no coração
A música dos bailaricos!

António de Lisboa,
Meu Santo milagroso,
Casai a rapariga boa
Com um moço bondoso!

São João, lá do Porto,
Trazei-nos vinho prá boda
E verão p'ra conforto
Do luar de roda em roda!

E, cansados de dançar
Que nos valha São Pedro
Para a fogueira saltar
Até à sombra do cedro!

A chave, entre o arvoredo,
Duma casa caiada
De branco, de manhã cedo,
Para ser nossa morada.

Nas casinhas há harmonia
E não faltam manjericos
P'ra dar à janela poesia
De cheirinho a namoricos!

No fim do mês de Junho
Há alegria nos olhares
E quadras que rascunho
Aos Santos populares.

© Ró Mar




“Festas Populares 2022”


Mês de junho, mês do povo,
Mês dos Santos Populares,
Pelas ruas nada de novo
Muito menos nos altares.

Cascatas de Santo António
Enfeitadas com balões
Manjericos património
E uma cesta prós tostões.

Santo António e São João
Com brincadeiras finas
Vão jogando de mão em mão
Coloridas serpentinas.

Não acha graça São Pedro
Aos alhos-porros famosos
Mas guarda-os em segredo
Dos olhares cobiçosos.

Festas Populares são assim
Singelas e sem intrigas
Que o diga o Benjamim
Sempre atrás das raparigas…

Com sardinhas ou bifanas
Todos querem petiscar
Há tintol prás carraspanas
E caldo-verde a fumegar.

Mês de junho, mês do povo,
Mês pequeno, mas com graça,
Todos gozam, sem estorvo
Pelas ruas, em cada praça.

Mês do povo, mês de junho,
Mês de todas as primícias,
Boas-Festas, testemunho
Coisas belas, oh delícias!

© Frassino Machado




LISBOA PRIMEIRA


Na noite de Santo António
Nas escadas, nas vielas;
Pressente-se matrimónio,
Nos olhos, nas piscadelas.

Belo é ver remexer
Se alusão ao namorico;
Há cartãozinho a benzer
No cimo dum manjerico.

No pão, assadinha sardinha
Pede depois de bailar;
Que sirvam boa pinguinha,
Num copo pra acompanhar.

Lisboa é a primeira
Dos Santos na tradição.
Pra que pronta a sementeira,
Segue os Stos Pedro e João.

© RAADOMINGOS




Santos populares


Santo António, São João
Protegei-lhe por favor
A bem do meu coração
Os passos do meu amor

Pelos bairros a saltar
Toda a noite e mais meu bem
Fartei-me de o beijar
Ele beijou-me também

Que boa rusga fizemos
De mãos dadas a correr
O festival que nós demos
Todos o quiseram ver

A nossa alma salta e canta
Nas rusgas do São João
Cada cantinho encanta
Canta o nosso coração

© Custódio Montes




MARCHAS…


Lá vai Lisboa a marchar
Com fatos de multicores
Andam no ar mil odores
Cheira a santo popular

Desfila-se na avenida
Soam cânticos p’los ares
Todos ligeiros os pares
Felizes da sua vida

Cada bairro faz figura
P’ra manter a tradição
Com amor no coração
Desta gente humilde e pura

Rapazes e raparigas
Mostram todo o seu valor
Na beleza no esplendor
Na garra de umas cantigas

Vem p’ra rua toda a gente
Também gostam os turistas
Acompanham os bairristas
De uma maneira diferente

Desde Alfama à Madragoa
Do Bairro Alto a Benfica
Mas em casa ninguém fica
Para ver passar Lisboa

No dia treze de junho
Santo António dá-lhe a mão
Como manda a tradição
Passando-lhe o testemunho

Marchas já há este ano
Covid tudo mudou
O povo não desfilou
Naquele passeio urbano

Nossa prisão foi marcando
Lisboa perdeu a cor
Deixando um rasto de dor
Pandemia desfilando

Santo António nos libertou
Temos de volta a cidade!
Deu-nos nossa liberdade
Solidão em nós acabou.

© ARIEH NATSAC



 

HÁ NOVAS MARCHAS NAS RUAS


Já te vestiram de tudo,
O teu pranto cantaram.
És generosa pra estudo,
Tanto em ti se inspiraram.

Já te calçaram chinelas,
Sapato fino, outros mais...
Nas pernas tuas canelas,
Te adornam pros arraiais.

Na ligeireza do passo,
Deixas os olhos pousar.
É deles o teu compasso;
Sua, a tua verve amar.

Na esbelta cintura dedos,
Decifram a tessitura.
Qual a fase nos segredos,
Quando pronta a partitura.

Nesse doce encantamento,
Santo António fez das suas.
É claro o enamoramento,
Há novas marchas nas ruas.

© RAADOMINGOS

 
 
 

COSTUME DE LISBOA


Varinas tem no andar
Manjericos na lapela
Vai Lisboa namorar
No mais lindo barco à vela

Remam asas de gaivota
Flutua nos braços do Tejo
Levando o cheiro da lota
A brisa manda-lhe um beijo

Junto ao cais a baloiçar
Tem costume de adormecer
Vê Santo António bailar
As suas sete colinas
As suas lindas meninas
Que o estão a proteger

Durante a noite o luar
É o seu lençol de espuma
Que a sabe alindar
Como se fosse uma pluma

Ele contente e feliz
Sonha com a sua história
E quando passa bem diz
Seu orgulho de vitória

© ARIEH NATSAC



      

TRONOS DE SANTO ANTÓNIO


Lisboa tem tradição
Pelas ruas e vielas
O cheiro a manjericão
E das sardinhas capelas;

Há grinaldas de flores,
Lanternas, balões e mais
Feitos de papel de cores
Garridas prós arraiais.

Lisboa tem património
Pelas montras e janelas
Tronos de Santo António
Chamariz prá ginga delas;

Há caldo verde, bifanas
Chouriço assado e vinho
Que engorda as trezenas
Do seu Santo Antoninho.

Lisboa menina do Tejo,
Sete saias a marchar,
Lava as vistas no cortejo
A António e vê-se casar;

Há andores e tambores,
Seda e chita colorida
P'ra conquistar amores
E saudade à despedida.

Lisboa tem arte e oficio
Pelos bairros típicos,
O fado honra o solstício
De verão com namoricos;

Há alegria e multidões
Pelos Santos populares
E Amália nas canções
A avistar todos os altares.

© Ró Mar


 


UMA MARCHA PARA ALCÂNTARA


Alcântara passas brejeira
De mansinho a dar ao pé
Saltas em qualquer fogueira
Mostrando um ar sem ralé

Vais formosa como sempre
Aqui ninguém te segura
Vens dizer a toda a gente
Que não há gente mais pura

Vives junto à beira-mar
Com os pés assentes na terra
Com seus modos de encantar
Passas a vida a cantar
O que a tua beleza encerra

Nem Camões foi esquecido
Tem aqui a sua rua
Neste bairro onde é merecido
E os Lusíadas sempre ouvido
Na boca de qualquer pessoa

Teve a rainha do fado
D.ª Amália foi a dilecta
Cantou-o por todo lado
De uma forma bem discreta

Alcântara é um rosário
De penas por desfiar
É tão grande o seu Calvário
Que o foram lá deixar

Vives junto à beira-mar
Com os pés assentes na terra
Com seus modos de encantar
Passa a vida a cantar
O que a tua beleza encerra

Nem Camões foi esquecido
Tem aqui a sua rua
Neste bairro onde é merecido
E os Lusíadas sempre ouvido
Na boca de qualquer pessoa

Tens a ponte sobre ti
E toda a gente que passa
Olha do alto e sorri
Extasiada com a tua graça

Passam para lá do Tejo
 Com Santo Amaro a vê-los
Lançando-lhes um terno beijo
Para sempre protegê-los.

© ARIEH NATSAC
 
 


JUNHO É LISBOA EM FESTA


Junho é Lisboa em festa,
Santo António vai á Sé
E ao município, nesta
Maravilhosa tournée;

Após o matrimónio
Desfilam pela Avenida
As noivas de Stº António
E as Marchas dão-lhe vida!

Noite de Santo António
Leva Lisboa ao céu
Compõe o aniversário
Do padroeiro a tropel!

Amália é mote forte
E os bairros badalam
E marcham a sua sorte
A ver o que conquistam!

O júri é soberano
E a mais linda da Avenida
Vai ser coroada este ano
E por todos acolhida!

Noite longa e calorosa
Que abre as portas ao verão
Com muita música e prosa
Ao luar do manjericão.

Junho é Lisboa em festa,
Santo António é a Fé
E com alegria nesta
Vai de chinela no pé!

© Ró Mar




QUERO VER VIVA LISBOA…


Quero ver viva Lisboa
De Alfama à Madragoa
Bem juntinha à beira rio
Mostrar-se fresca e ladina
No seu porte de menina
Que lá no alto surgiu

Tem as honras de rainha
De um castelo foi madrinha
E de um povo que bem lhe quer
Por ser nobre e azougada
Para a farra foi fadada
Vai numa marcha qualquer

Tem seu santo padroeiro
Que o nosso rei primeiro
Quis que fosse S. Vicente
Quando conquistou Lisboa
Embora muita gente boa
Tem Santo António em mente

É santo mais popular
Põe o povo a cantar
É também casamenteiro
Dá mais brilho à cidade
Festeja-se em liberdade
E Lisboa tem outro cheiro.

© ARIEH NATSAC




Autores: ARIEH NATSAC,  Custódio Montes, Frassino Machado, 
RAADOMINGOS e Ró Mar

 

Ilustração: Fotografia © Ró Mar | 2022

sexta-feira, 29 de abril de 2022

"ABRIL | AMENDOEIRA"




DESAFIO POÉTICO: "ABRIL | AMENDOEIRA"


*

AMENDOEIRA EM VERSO


Primavera chuvosa tem outra vida,
Abril regado, Páscoa abençoada
Pela família, alma alva, renascida,
Mimo da natureza, Flor venturosa.

A timidez do Sol declara paixão,
Que promete ser grandioso amor,
Lê-se nas faces rubras dum coração
De sorriso rasgado, libertador!

Os dias crescem no leito, que cochila
Naquele olhar campestre, níveo-rosa
Desfilando em romaria até à Vila!

Vento frutífero, árvore frondosa,
Celestial, devaneio da pupila,
Amendoeira em verso, maré de prosa!

© Ró Mar 

*

EM ABRIL É PRIMAVERA


Em Abril é primavera
Jorram águas p’los montes
É espera noutra espera
Valha-nos Deus quem me dera
Ver uns novos horizontes

Com flores de amendoeira
A lembrar gelo passado
Mas quebrou-se a rotineira
De ver tanta pasmaceira
Ai jesus seja louvado.

Quem cava a terra seus chãos
Vai abaixo, vem acima
Tem na ideia um irmão
Que nem sempre tem razão
Semente que não germina

É como flor tão bravia
Que no agreste se entrega
Gestação fraca e tardia
Que seu caminho arrepia
Ousado e muito brega

Contra o tempo é resistente
Suporta uma mascarilha
Leva tudo no batente
Rasteja como serpente
Vai num barco sem ter quilha

Sempre tão bem perfilado
É um homem indefeso
Vai sentir-se apavorado
Quando cair para o lado
Numa teia fica preso

Nunca se dá por vencido
Faz lembrar um gajeiro
Passa ao lado sem sentido
Mesmo sendo preterido
Julga-se ser o primeiro.

© ARIEH NATSAC

*


© Lúcia Ribeiro 

*

SE A PAZ SE FOI EMBORA


Já não sabem onde moram, e já perderam o norte
É tão grande o desnorte, que de vergonha até choram
Entregues à sua sorte
Os meses estão a passar, os anos já vão pesando
De tudo se estão a fartar, já perderam o comando
Para se orientarem
No calendário do tempo, se foi o mês de Abril
Só lhes resta o lamento, que lançam a mais de mil
Nas desfolhadas do vento
Capitães lançaram chamas, num mar de tempestade
Apagaram-se com a idade, e em lágrimas se derramam
Como símbolo da saudade
Se a paz se foi embora, saiu pela porta fora
Procurando novos caminhos, sem saber se a encontram
Pisando tantos espinhos
As casas estão fechadas, e as janelas tristonhas
Amendoeiras estão desfolhadas, parecem coisas medonhas
São verduras assombradas
Filhos se desconhecem, foram levados para longe
Pensam que adormeceram, no silêncio amanhecem
E do país se perderam
Ai como tudo é diferente, até perderam o falar
Andam à toa sem verem gente, para um sorriso lhes dar
Vão vegetando tão lentamente
Que se sentem a delirar.

© ARIEH NATSAC

*

A VIDA


A vida tem pressa.
Nessa sofreguidão sucedem-se abris!
A compasso, desponta impaciente a amendoeira.
Pergunto-me porquê a urgência?
O meu abril longínquo ensinou-me que não há que a precipitar;
O futuro se encarregará de a devolver!

© Rosa A. Domingos

 *

CALEM-SE…


Calem-se todos. Menos aves e as fontes
Que soprem os ventos nas florestas
Vejamos límpidos horizontes
Façamos na vida muitas festas

Calem-se as vozes dos algozes
Que atiram palavras como metralha
Levantem-se nas marés cascas de nozes
Afundem-se os vapores da escumalha

Calem-se os cães que usam gravata
No canil onde escolhem osso
Indo procurar ao fundo de muita lata
Quando rosnam põem tudo em alvoroço

Calem-se os arautos da pouca sorte
Da seara seca e sem trigo
Num ondular sem verde que é suporte
Sem voltarmos ao tempo antigo

Calem-se os profetas que sabem tudo
Que a hora vai passando lentamente
Onde os minutos são apenas escudo
Um pano quente

Calem-se os amigos do bolso alheio
Vivendo no mundo em comunhão
Montados num cavalo sem freio
E mais tarde ou cedo vão ao chão

Calem-se os de abril sem ver ABRIL,
Que vivem num mundo estrangulado
Continuam construindo o seu canil
Ladrando num atoleiro amotinado

Calem-se os outros que vão ao fundo
Procurando meios hábeis e subtis
Abrindo cicatrizes no seu mundo
Vincadas nas mazelas sem verniz

Calem-se os diabos e os santos
Leem todos na mesma cartilha
Embora AMENDOEIRAS sejam cantos
Esqueçam o missal e a forquilha

Calem-se Adamastores inda presentes
Façam-se ao mar como Bartolomeu Dias
Neste mar com novas correntes
Acalmar novas tormentas, sem orgias

Calem-se os bruxos e os fariseus
Não queiram dar cabo do que louvo
Não escondam vozes livres entre véus
Com rezas que atrofiem mais o povo

Calem-se os medos e as preguiças
De avançar sem ter destino
Descolem-se as coisas pegadiças
Façamos da atitude nosso hino.

© ARIEH NATSAC

*

ABRIL TEM MIL E UMA FLORES


Abril tem mil e uma flores
E um brilho no luar,
Que acorda Lisboa e arredores
Em cravos multicolores
Daquele perfume impar!

Tem amendoeiras com flores
Rosas e brancas no olhar
E um coração de amores,
Que é delicia de escritores
De pena fina p'ra voar!

© Ró Mar 

*

DUAS CORES NOVA HISTÓRIA…


Amendoeira flor branca
De pureza sem igual
De um mês foi alavanca
Do abril em Portugal

Mas foram cravos as flores
Que foram flores do povo
Libertou as suas dores
Num despertar que foi novo

Amendoeiras flores da paz
Num abril, criou raiz
Com a força de ser capaz
De mudar e ser feliz

Gente gritou bem alto
Tirou algemas do medo
Foi neste dia o arauto
Nova história outro enredo.

© ARIEH NATSAC

*

NO MEU PAIS PRESENTE…


Fiz um castelo no ar
Com ameias cor de vento
Cantei versos ao luar
Com estrelas de embalamento

Tive princesas errantes
Tendo as mãos cor de rosa
Seus olhos eram brilhantes
Suas bocas eram prosa

Suspiros de fim de tarde
Na ponta do fim do mundo
Na lonjura que ainda arde
Num terreno que fecundo

Tendo os gemidos na voz
Horas vivas com o cio
Caverna de um tempo algoz
Onde desagua um rio

São pedras que não atiro
Nos meus jogos florais
Reserva como retiro
Que me esconde nos seus ais

Seca meu pranto de neve
Amendoeira que aflora
Pesadelo que nos deve
Deixar ir, e sem demora

A noite faz ponto cruz
Dum novelo feito lua
Carne ardente de luz
Toalha que apazigua

No meu castelo incendeio
A corrente que me agarra
Um abraço onde permeio
A escassez em que se amarra

Minha amiga, minha flor
Terraço onde não caio
Soltei pássaros de dor
Com passos de abril e maio. 

© ARIEH NATSAC

*

"ABRIL | AMENDOEIRA"
Autores: ARIEH NATSAC, Lúcia Ribeiro,
Ró Mar e Rosa A. Domingos


*

Sonetos do Universo | Abril de 2022

sexta-feira, 22 de abril de 2022

CANÇÃO DA TERRA




CANÇÃO DA TERRA 

“No Dia Mundial da Terra”


Canção da terra
Venho trovar
Ao sol nascer,
Saudade austera
Eu quero guardar
Num só viver.

Canção da terra
Terra de todos
Em pleno Bem,
Acabe a guerra
Afecto a rodos
Em terra-Mãe.

De manhã cedo
Mãos ao arado
Para lavrar,
Não tenho medo
Vou co´ o meu gado
O pão semear.

Mesmo de chuva
E cesta na mão
Vou pra vindima,
Eu colho a uva
Comendo o pão
Com mel em cima.

Tocam os sinos
Ave-marias
Na torre d´ igreja,
Penso os destinos
E as tropelias
Q´ ninguém deseja.

No horizonte
Dança a boieira
Para entreter,
Passo na fonte
O grão na eira
Vou recolher.

Já não há sol
E a brisa espanta
Em vez do vento,
E o rouxinol
Já pouco canta
Pra meu lamento.

Canção da terra
Canção da paz
E de embalar,
Na minha guerra
Desde rapaz
Sempre a cantar.

Dia da Terra
Terra sagrada
Q´ é minha e tua,
Luta na berra
Incendiada
Em cada rua.

Verde Planeta
Sonho de esp´rança
Logo no berço,
E tu, ó poeta,
Teu grito lança
Em cada verso!

© Frassino Machado
In CANÇÃO DA TERRA
E DO MEU PAÍS

terça-feira, 12 de abril de 2022

TEATRO DE REVISTA




DESAFIO POÉTICO: POESIA | tema: Teatro de Revista


*

Teatro de Revista

EM CENA


Em frança se vestiu
Pra se contar certa história!
Cortejou Mari' Vitória
Reza ela, diz quem viu!

Portugal descobriu
A quem é que pertencera?
Só agora alguém dissera
Em França se vestiu!

Consta ser grande a memória
Por quem nos palcos atuou.
Não há como quem o pisou
Pra se contar certa história!

Desta não há escapatória
Grande é a maledicência,
Alvitra-se pra audiência:
Cortejou Mari' Vitória!

Na sala nem um pio...
De joelhos pro juiz:
Acredita no que fiz?
Reza ela, diz quem viu!

© Rosa A. Domingos

 *

Teatro de Revista

I ATO


Por Lisboa e região
Deslocando-se além-mar
Difícil não recordar
As rábulas e a canção!

Não tem tarde nem serão,
Qu' ambulante companhia
Não partisse em romaria
Por Lisboa e região!

Quando a época findar
Inventam outro processo;
Procuram novo sucesso
Deslocando-se além-mar.

Que emoção ao chegar,
Novo publico a aplaudir!
Impossível não sentir
Difícil não recordar!

Ato um de interpretação
A graça marca o intervalo;
Com sátiras à Bordalo
As rábulas e a canção!

© Rosa A. Domingos
 
*

Teatro de Revista

II ATO e FINAL


Parque Mayer que saudades;
Foste grande nas alturas,
Mas já não vejo farturas,
...Poucas as variedades!

Revista fez amizades
Cartazes finos o expunha;
Casa cheia até à cunha
Parque Mayer que saudades!

Mesmo foco de censuras
Não fugias à mensagem;
Ah Homens de enorme coragem
....Foste grande nas alturas!

Seguem-te nas escrituras...
Onde estão Ivones, Irenes?
Há ícones, ouço sirenes
Mas já não vejo farturas!

Não tirando qualidades
Do que foste e do que és;
Agora são em palmarés
Poucas as variedades!

© Rosa A. Domingos

 *

TEATRO DE REVISTA


Nos tempos que correm não
Há plumas nem lantejoulas
P'ra ver brilhar a atuação
Dos artistas de eleição,
Mas, há sempre mui papoulas!
Tramas, criticas não faltam
Na paródia da revista,
Eles nelas s' aperaltam
E toda a plateia exaltam!
Ah, que o teatro sempre exista!

© Ró Mar 

*

SAUDADES DO PARQUE MAYER…


Passei lá um dia destes
E fiquei tão desolado
Parque Mayer tu morreste
Então lembrei o passado

Aí que saudades eu tenho
Do velho parque Mayer
Relembro coisas de antanho
As quais não vou esquecer

Provocava-se a censura
Deixando nas entrelinhas
Dentadas na ditadura
Com graçolas bem fresquinhas

No ABC, Capitólio
Maria Vitoria, Variedades
Ficou riso como espólio
Dos artistas de verdade

O Salvador o compère
Com seu ar desengonçado
Às pancadas de Molière
Deixava o povo siderado

E o Camilo de Oliveira
Com seus tiques famosos
Fazendo de galã ou freira
Com modos maliciosos

Os mestres Vasco e o Silva
No cinema, geniais
Laura Alves, Ivone Silva,
Mariema, e muitas mais

A Beatriz Costa saloia
Que veio lá da Malveira
Danadinha p’ra ramboia
Uma artista de primeira

Humberto Madeira e o Barroso (*)
A Amália que linda voz
Herminia outro colosso
Orgulho de todos nós

Maria Matos, Tereza Gomes
Palmira Bastos versada
Estrelas de cartaz seus nomes
De uma geração dourada

Muitos outros lá passaram
Costinha e o Ribeirinho
Com mestria camuflavam
As dores do Zé povinho

E Lisboa logo corria
Com grande satisfação
P’ra esquecer a carestia
Que andava de mão em mão

Antes de começar a sessão
Ó freguês vai um tirinho
Um modo de diversão
Ou então ia um copinho

E no Chico das Miombas
Havia o arroz de Lampreia
Eram dozes de arromba
Sempre a travessa bem cheia

Como tudo era diferente
Neste país revoltado
Povo ficava contente
Indo à guerra do Solnado

Na revista à Portuguesa
Onde o povo se animava
Apesar de tanta pobreza
A sessão logo esgotava

Foram tantas as revistas
Que ainda hoje são lembradas
Os atores e as coristas
Que no tempo estão guardadas

Hoje tudo se alterou
As modas as tradições
Do Parque Mayer ficou
Não mais que recordações.

© ARIEH NATSAC

 (*) Barroso Lopes - Restaurante A Gina (atualmente).

*

TEATRO DE REVISTA
Autores: Rosa A. Domingos, Ró Mar e ARIEH NATSAC


*

Sonetos do Universo | Abril de 2022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A POESIA É




A POESIA É 


«No Dia Internacional da Língua Materna»


Todos os dias são felizes com Poesia!
A Poesia é, aquele apaixonado jeito
De recolher formosas flores dentro do peito!

Do «peito ilustre Lusitano»
Neste Dia e neste Ano
A POESIA é a Alma da nossa Língua
Que ela jamais fraqueje à míngua …
Porque ela é a nossa Casa
Reforcemos com energia a sua Asa.

Para que voe qual Condor
Num subtil e ágil canto
Vestida de encanto
e de Amor!

© Frassino Machado
In RODA-VIVA POESIA

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

O FADO


COROA de SONETOS: O FADO


Autores: RAADOMINGOS e Ró Mar 




O FADO


I

A saudade patente bem vincada,
Quando nas tascas do fado vadio;
Cordas das gargantas em desafio
Cantavam em bonita desgarrada.

A guitarra antes forte dedilhada
Carpe presente um outro trino frio;
Sente a falta do portentoso brio
Da Severa cantora e camarada.

Amores antigos por si cantados,
Fenecem nas notas de tanto dó
Em escalas de muitos condados.

Seu corpo dorido desfeito e só
Aos poucos tem os dias contados;
Se não se desfizer da sina o nó!

© RAADOMINGOS
 
*

II

"Se não se desfizer da sina o nó"
Marinheiro que atracou cantadeiras 
Ao velho veleiro com brincadeiras,
Boémia e poesia não te sentirás só!

Foram décadas por terra além-mar 
Exibindo o peito, espontaneidades
 Exorcizando tristeza e saudades
Retratando o quotidiano popular.

Sal que o transformou na mais pura e nobre 
Canção, que a todos enche o coração;
Trinado p'lo contemporâneo pobre

E também p'lo rico com precisão!
Que faz com que a poesia se desdobre
P´lo acorde fazendo do fado nação.

© Ró Mar

*

III

"P'lo acorde fazendo do fado nação"
Com viola e guitarra portuguesa
Meia dúzia de pessoas à mesa,
Fica composta a área do salão.

Velas, caldo verde, chouriço e pão,
Abrandam do peito certa tristeza,
Contrastando com a enorme beleza,
Da voz que sabe tão bem o refrão.

Estribilho qu' emociona e arrepia,
Que se entranha bem fundo e s' espalma
P'la ligação que se dá e se cria.

Não se explica como é qu' ela calma,
Mas o certo é que é terapia;
Que vai deixando mais solta e leve a alma.

© RAADOMINGOS

 *

IV


"Que vai deixando mais solta e leve a alma"
E o coração apaixonado ao vozeirão
Espelhando os Senhores da criação
Com o imponente brio de vénia e palma.

Nas ruas e vielas, botecos e outros
A gíria fez bairros carismáticos,
Que por nobres infaustos e críticos
Fez do fado ocioso o oficio doutros.

Na festa carnavalesca a essência
D' alma à letra e o vinho português,
Que sempre foi bom por excelência!

Levou-o das ruas ao teatro, ao burguês,
Que à boca cheia lhe deu consistência
P´la valia das precisões do freguês.

© Ró Mar

*

V

"P'la valia das precisões do freguês"
Tratam os agora pelas palminhas;
Ver se das frestas das velhas tabuinhas
Cresce outro tipo d' entalhes e quês.

Dos anos passados e dos porquês...
Coitada da animada Mariquinhas
Se em troca das habituais prendinhas
Os mariolas trouxessem bouquês.

O consagrado agora é mais brilhante
Há novo estofo outro tipo de mobília
Um património bem mais interessante.

Notáveis serões de aprazível vigília;
De um convívio salutar, apaixonante
Onde se juntam como sendo família.

© RAADOMINGOS
 
*

VI

"Onde se juntam como sendo família"
 Partilhando o social e cultural
Na amena cavaqueira, musical
De cordas afinadas na voz da Ercília;

A "Santa do Fado", atriz de revista, 
Que a voz elevou a internacional 
Através de discos, rádio local
 E digressões por fora, grande artista!

Por terras de França, América e Brasil
Acompanhada de ilustres guitarristas,
Armandinho e Raul Nery, mostrou o brio.

Das casas de fado ao teatro fez conquistas;
Da sétima arte à rádio o fado vadio
 Volveu o palco do mundo, deu nas vistas!

© Ró Mar  

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 VII

"Volveu o palco do mundo, deu nas vistas"
E pautou história. O fado "clássico"
Fez do triste viver do povo icónico
E em simbiose com o romantismo "cristas".

A exibição em salões da aristocracia
Fez com que ele se tornasse a expressão
Musical portuguesa de tradição
Retratando a saudade, o ciúme e a nostalgia.

Muitos foram os que lhe deram voz
De notar Hermínia Silva, que fez oficio
E nome ao fado "musicado" de todos nós;

Lucília do Carmo, F. Maurício
Entre outros... é de enobrecer a voz
De Alfredo Marceneiro, o patrício.

© Ró Mar 

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VIII

"De Alfredo Marceneiro, o patrício,"
Que deu voz à canção e seu glamour,
Vestido a preceito, letra de 'amour'
P'la arte assinada em nome fictício.

Sobe ao palco do Coliseu dos Recreios
Com a Opereta "História do Fado",
 Beatriz Costa e Vasco Santana ao lado
Do mestre dos auspiciosos gorjeios.

O nosso "Fabuloso Marceneiro" 
Foi a voz da Valentim de Carvalho
E toda a sua vida foi marceneiro;

De boina e lenço de seda, dava valho,
"Ti’ Alfredo" tinha estilo de obreiro,
De mãos nos bolsos saía o fado 'agasalho'.

© Ró Mar 

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IX

"De mãos nos bolsos saía o fado 'agasalho'"
E de xaile negro vibrava a eximia
Voz de Amália Rodrigues, idolatria
Duma cultura, abertura de atalho...
 
Considerada a "Rainha do Fado" 
E amada por todos, levou a canção
Do seu povo com alma além do coração
 Elevando-a como "poesia do fado".

Graças à 'Diva' o 'tradicional' consolida,
Ícone da cultura nacional,
 Êxito internacional, canção querida.

Com Amália a Catedral de Portugal,
O apogeu do fado moderno na lida
Do grã Camões e outros, monumental!

© Ró Mar 

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X

"Do grã Camões e outros, monumental!"
Tanto é o que traduzo em arrepio
P'la sua voz "Povo que lavas no rio",
Relembrar é de jus e fundamental!

Letra nesta época transcendental,
Que só a entrega e genuíno brio
Da nossa distinta Dama ouro-fio
Lhe confere autenticidade sem igual.

Grande responsável e com amor
Que de si a admiração era devota
Temos também o Alan, compositor.

Registo d' entre tantas a "Gaivota",
A "Estranha forma de vida" e "Lianor"
Grandes composições do poliglota.

© RAADOMINGOS
 
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XI

"Grandes composições do poliglota"
Abriram no horizonte outra janela
E de braço dado a fadista e a Estrela,
Embarcaram na aventura patriota.

Seguir a Rainha tudo se atenta e nota;
Muito se admira a compleição,
Se se comporta na perfeição,
Se o vestido é feio ou janota!

Mas, isso pouco lhe interessa qu' aconteça
Fecha os olhos e sente a canção
Com um ligeiro inclinar de cabeça!

Comove-se como se em oração
Rezasse pedindo a Deus, que depressa
Lhe acabe com tamanha solidão!

© RAADOMINGOS

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XII
 
"Lhe acabe com tamanha solidão!" 
É palavra d' ordem no Faia, Bairro Alto; 
Retiro d' artistas, gabarito lauto; 
Carlos do Carmo como anfitrião! 

Tantos conduziu pela sua mão;
Lenita, Tarouca, Maria da Fé...
Agora, Moura, Mariza, Camané
E tantos outros desta geração!

Sons que trazem novos andamentos
E glórias, como Dulce Pontes e a assaz
"Canção do Mar" entre outros êxitos;

Especiais no moderno que se faz
Portadoras de novos sentimentos;
Dão ao futuro um excelente cartaz!

© RAADOMINGOS

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XIII

"Dão ao futuro um excelente cartaz!"
Orgulho sabê-las transpor fronteiras;
Não sendo das afamadas primeiras,
São as que presentemente a plateia apraz!

Junto ao Olympia, Paris a passar,
Ver no néon quem são os da atuação
Não há no íntimo maior comoção
Do que ler o que está a publicitar!

Ter no palco uma bandeira içada,
Repovoar novamente a memória
Saber ser nossa verde e encarnada;

É degustação de uma doce vitória
Que jamais por todos será apagada
Dos arquivos da Lusitânia história!

© RAADOMINGOS

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XIV

 "Dos arquivos da Lusitânia história"
Recordamos dois séculos de cultura
Popular, a arte do fado e sua postura
Mundialmente, os momentos de glória.

Através do espólio dos grandes do fado
E de memórias doutros conflui a grandeza
Da canção lisboeta e guitarra portuguesa,
Dos bairros típicos... Uno Museu do Fado.

A velha e eterna tradição que fruamos
Nas Casas de Fado, a anciã pisada
De arte e talento, que sempre recriamos;

E na Casa de Amália sentimos vida,
Memorizamos sensações, miramos
"A saudade patente bem vincada."

© Ró Mar 
 
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Sonetos do Universo | 02/ 2022