domingo, 12 de abril de 2015

CADA UM TENTA ENCONTRAR


    Foto de Jerry N Uelsmann


     CADA UM TENTA ENCONTRAR 

    AQUILO QUE PROCURA  


    Cada um tenta encontrar aquilo que procura, 
    a abelha a flor viva e fresca, o abutre a carcaça apodrecida.
    Uns saciam-se de vida, outros satisfazem-se com o que a morte
    lhes oferece.
    Tempo e paciência. Tempo e paciência.
    Nós não estamos em paz, nunca estamos em paz,
    não sabemos sequer a intensidade que tem a nossa fé.
    Procuramos a beleza sem capacidade para preservar a beleza
    das coisas mais belas que herdámos, objectos, costumes, pensamentos,
    até mesmo a simplicidade que a natureza fabrica.
    O lema é não sentir nada, nem sequer simpatia, pelos vivos,
    pelos mortos, pelos moribundos.
    Manter o inimigo por perto é a estratégia. Quem,
    de entre nós, não atirou já uma segunda pedra?
    Trago para ti alguma coisa. Alguma novidade? Sinto
    que posso contar-te tudo, sou eu que devo confessar-me.
    Amaste-me? Eu também te amei, amo-te ainda
    com um amor que irá sobreviver-me.
    O meu pai partiu com o pai dele num pequeno navio
    cujo pavilhão pertencia a um país que não terá lugar na história,
    onde o egoísmo e a miséria passavam as fronteiras livremente.
    Quando chorava em pequeno bastava-me uma canção
    de embalar,
    hoje preciso de ouvir a tua voz, tendo o direito de permanecer calado.
    Venho da idade da pedra. Mesmo de antes. Muita gente
    quer saber como estou. O mais sensato é fingir que não os ouço,
    voltar a casa definitivamente.
    Os peixes da ignorância nadam contra a luz.
    Quando acaba a montanha começa o trabalho azul dos
    camponeses
    e a canção da chuva e a metamorfose da semente e a voz essencial dos pássaros.
    Um instante de beleza pode demorar a vida inteira.
    Não há heróis nem santos. O boi é um deus que trabalha por
    cinco homens,
    há uma linguagem musical que é o coro do sofrimento,
    os arcanjos e os anjos têm os pés inchados e as penas e a pele fedem de transpiração.
    Apanho um comboio e um barco, viajo para lá do acontecimento
    que é sentir-me ser dali. Vou-me embora de mim.
    Este diálogo não acabou e não acabará nunca. Vou
    com os camponeses da cidade, feliz como um animal doméstico,
    por vezes como um cão vadio no inverno, cuja felicidade
    é apenas atingir a primavera seguinte.
    Vou com as gaivotas que procuram a vida
    nos milhares de toneladas de lixo da civilização. Vou também
    com a dor de todos os massacres e com os missionários confortáveis
    que querem governar o mundo sem saber governar o próprio estômago.
    E vou ainda com. E com. E com. E com.
    E vou ainda.

    Joaquim Pessoa 

    in VOU-ME EMBORA DE MIM