sábado, 3 de outubro de 2015

MOINHOS DE VENTO

 
 Moinhos de vento da serra da Atalhada 


“MOINHOS DE VENTO”


Brancos moinhos, parados, sonolentos,
Sem mágoas, sem lamentos,
Em repouso, de dormência embebidos
Ao alto erguendo os braços ressequidos!

No Verão tudo é silêncio. O sol é rubro e forte.
E, sob a ténue brisa do Norte,
As grandes velas, quais lenços de saudade,
Parecem gemer de ansiedade...

Chega o Outono e o vento nas charnecas
Faz redopiar no chão as folhas secas
E grita e uiva, pelas serranias!

Chega a alegria aos moinhos! Despertam do sono,
E tremem de anseio, que já aí vem o Outono! 
E de velas enfunadas, viram ao vento, desfraldadas!

Alfredo Costa Pereira
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O TANQUE


 

O tanque


Havia ali atrás do casario
Um tanque enorme aonde se juntava 
A gente lá do bairro, ao sol, ao frio,
E a roupa lá de casa se lavava

Às vezes, p'la tardinha, no estio,
A mulherada vinha e se banhava
Sujeita a um olhar, um assobio, 
De algum mirone ousado que passava 

E aquela grande roda que ao girar
Impulsionava a bomba a trabalhar,
Fazia sair água em turbilhão

E a pequenada ali se divertia
A ver sair a água pura e fria
E a banhar-se em pura diversão!

José Sepúlveda

O NOSSO OUTONO


Imagem - Divergent


O NOSSO OUTONO 

VESTE AS ALMAS PELAS RAÍZES


O nosso outono despe os galhos às árvores;
Com o soprar do vento magnetiza olores
Frutados, que inebriam os corpos em elos de mãos cheias,
Quais passeiam pelas pedrinhas da calçada as ideias;
Roupagem natural de uma estação de mudança
Que fertiliza os laços de união em taças de paixão.

O nosso outono não tem uma idade para amar;
Com o soprar de anos a casta é mais nobre;
Os olhares mel, que inebriam os corpos em elos de peles,
Quais desenham pelos troncos jardins de nomes cobre,
À imagem da beleza de uma estação neles;
O memorando de sonhos em talha de renovação.

O nosso outono veste as almas pelas raízes;
Com o soprar criativo de uma folha somos felizes;
Lábios ao vento, inebriam os corpos em palavras de luz,
Quais escrevinham pelos corações vidas em poema;
O Multifacetado da estação traduz
O ar superlativo dos céus em noites de temperado clima.

® Maria Pessoa
(pseudónimo)

GUARDO LISBOA NO CORAÇÃO


 

GUARDO LISBOA NO CORAÇÃO 


Muitos lágrimas amargas derramei,
Quando contra vontade te deixei,
E segui os mares das descobertas 
Para me reencontrar com as terras 
Que meu pai semeou e eu floresci
Para a vida muito feliz, que eu vivi.

Fiquei contigo sempre no coração,
Nunca mais te esqueci, presente 
Te tenho em todo o meu instante,
Penso em ti, com muita devoção,
Minha esperança de ainda voltar,
Para de braço dado poder andar.

Tuas colinas, miradouros e vielas 
A luz intensa que ilumina a vida 
Da cidade, o fado e seus fadistas
Os retiros com seus guitarristas, 
O castelo, Mouraria e Bairro Alto,
E o Tejo beijando suas margens.

Permanecem as lágrimas amargas
No meu rosto que não sei disfarçar,
Fazem parte do meu belo passado,
Que jamais será por mim olvidado.

Ruy Serrano 

NÃO À FOME. NÃO À DESIGUALDADE.


Imagem - Divergent 


NÃO À FOME. NÃO À DESIGUALDADE.

NÃO À CARIDADEZINHA.


A fome é um bichinho 
Que corrói o ser humano
Tanto a nível físico como psicológico;
Tendo em conta que há pobreza
De gente no mundo, falta de caráter !
Quais tratam gentes
Como objetos ou seres distantes
Do seu mundo negando-lhe a vida!
Um pedaço de pão;
O carinho de suas mãos;
Um gesto de amizade;
Um minuto de cumplicidade.
Tratam-os como os coitadinhos
Que para nada servem,
Se lhes dão pão é de farinha de segunda 
E alguma fora de validade;
Que morram é indiferente,
Não têm nada para dar à sociedade!
A fome não é o mal só dos que dela padecem
Mas sim dos que dela têm conhecimento
E olham indiferentes, ou até
Solidários na caridadezinha!
Todos os cidadãos têm por direito
A integridade física e mental
E devem ser respeitados de igual forma.
Para combater a fome não é ter que pedir esmola,
Humilharem-se para sobreviver!
Ela é um mal geral da sociedade
Irradiado em todos os seres
Quer por necessidade, quer por negligência;
Pobres de espirito
Que veem as gentes
Como os famintos de pé descalço
E os enterram até à cova!
Deem-lhes o que não precisam para viver
Mas com grande coração
Para que não sejam os pobres de alma
A fazer a caridadezinha.
Sim porque a fome é apenas a miséria 
Causada pelas gentes 
Que esvaziam o estomago de outras gentes
Até que a morte lhes abra as portas da eternidade;
É o reverso de pobreza de espirito!
Todos os que sentem a fome na pele
São sem dúvida grandes almas;
Dignas d´um pedaço de pão
Oferecido de vontade, não o lixo da cidade,
Ou os dejetos do campo.
Estendam as mãos d’alma e coração
Aos mais desprotegidos;
Não fomentem a caridadezinha!
Todos os seres humanos têm direito à igualdade!
Fomente sim a solidariedade 
Em doses de frutos sãos 
De prosperidade e amizade.
Irradiar a fome é a maior riqueza,
Gentes que nos são uteis à sociedade
Que merecem viver com dignidade.
Que o mundo faça algo pela igualdade,
Que as gentes olhem outras gentes
Como seres iguais e de valor!
A fome é um bichinho que destabiliza
A balança de um mundo que queremos sadio;
Há guerras, misérias desmedidas,
Haja paz e pão nas mesas com fartura!
Cabe a todos o dever de respeitar os direitos
Consagrados ao ser humano,
Quais estão a ser desrespeitados
Sem dó nem piedade e quem 
Lucra com a situação são os famintos de alma,
Os marginalizados de um pedestal exótico 
Que têm os dias contados em sociedades
Que comportam grande percentagem de pobreza. 
Não é com caridadezinha que educam um país, 
Que crescem homens de valor e mãos de trabalho!
Deem-lhes um salário digno de gente,
Deem-lhes a oportunidade de viver com dignidade,
Deem-lhes o que lhes é por direito.
Não obriguem as gentes de necessidades a mendigar
O pão de cada dia para sobreviver.
A fome é um bichinho
Que corrói o mundo
Tanto a nível de taxa populacional,
Como a nível de progresso nacional;
Assim como violência gera violência
E todos queremos um mundo de paz!
NÃO À FOME. NÃO À DESIGUALDADE. 
NÃO À CARIDADEZINHA.

® RÓ MAR

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

ROMAGEM DA MINHA SAUDADE


Imagem - Ermida de Nossa Senhora do Monte


ROMAGEM DA MINHA SAUDADE


“Trovas às Senhoras do Monte”


P´ lo cantar da cotovia
Nas ondas do horizonte
Subi às Senhoras do Monte
Com a alma em harmonia.

Saí da Casa da Beira
Em solarenga manhã
Pra ermida que n´ alto está,
Ex-libris de Nespereira.

Já lá fui de tenra idade
Vezes e vezes sem conta
E agora, por pouca monta,
Sou romeiro da Saudade.

Naquela íngreme encosta
Onde antes eram fazendas
Vêm-se agora vivendas
Duma aparência bem-posta.

Do cimo da Belacosa
Por socalcos e vinhedos
Avista-se sem enredos
Uma paisagem frondosa.

Foi grande a coincidência,
Da minha maior estima,
Estavam lançando a vindima,
Deste Minho providência.

Manhã repleta de calor
De colheita sem camisa
Toda a gente colhe e pisa
Os frutos do bom sabor.

Fresca encosta verdejante,
Antes carvalhos, pinhais,
Hoje, apenas, eucaliptais
De uma cor extravagante.

Aqui e além moram fragas,
Por entre elas há veredas
Que s´ estendem sós e ledas
Pelas musgosas quebradas.

Estão à vista as capelas,
De S. João e das Senhoras,
Quem lá vai esquece as horas
E o silêncio à volta delas.

Vêm-se rochas memoriais
Com parques pra merendeiros
Há décadas que os romeiros
Por ali deixam os seus sinais.

Na mais santa das Montanhas
Rente às sagradas ermidas
Elevam-se empedernidas
Duas sumidades-estranhas.

Uma é o cruzeiro da Fé
Restaurado do trovone 
Outra é a torre da Vodafone
Que ninguém sabe pro qu´ é.

Ali mesmo um memorial
Escrito com engenho e arte
Cita o primo padre Duarte
Dos romeiros primordial.

Estava eu nisto pensando
Quando passa um pelotão
Duma BTT em diversão
Que ia por ali passando.

É assim aos fins-de-semana
Habitual giro em bolina
Naquela santa colina
De uma ou outra caravana.

Desfraldei uma oração 
Antes de me despedir
Das Senhoras que a sorrir
Me benzeram o coração.

- Ó Senhora da Lapinha,
E do Monte e da Guia,
Canto pra Vós com magia
À luz de acesa estrelinha.

Quão belo o azul do céu,
Ao longe a linha do mar,
Foi muito bom aqui estar
Levo na alma um troféu.

Olhei o fausto do horizonte
De todo o concelho primaz,
Sentindo-me feliz e em paz
Desci das Senhoras do Monte.

Um dia aqui voltarei
Pra alimentar a Saudade
Nas asas da liberdade
Que desde a infância gerei!

Frassino Machado

In CANÇÃO DA TERRA