segunda-feira, 4 de março de 2019

O CORSO DESAVERGONHADO




O CORSO DESAVERGONHADO
“Carnaval de 2019”


Passa e perpassa o Corso desavergonhado
Ele vai de rua em rua e nada o faz parar
É como neste Mundo o curso do seu fado,
Rodopiando como o vento sem cessar.
Passa e perpassa o Corso pela avenida
Esquecendo o povo as agruras da sua vida. 

Ele esquece, se é que esquece, o seu desengano
E ouve os sons, e ouve os gritos, e ouve os ais
Embalados em festa, uma vez por ano, 
E no fim, se houver fim, fica a chorar por mais.
Passa e perpassa o Corso, passa o Carnaval
E fica um travo amargo, triste e desigual.

Passa e perpassa o Corso, passam os figurantes
Representando o quotidiano como num palco,
Lembrando, em cada cena, aquilo que foi antes
Ou que é hoje ou depois e às vezes com desfalco.
Passa e perpassa o Corso, como brincadeira
E fica a lassa alma com lágrimas à beira…

Passam os bombos, as pandeiretas e os guizos,
E os Zés Pereiras, cabeçudos e serpentinas,
E os alegóricos e os Caretos e os risos
E as donas ou donzelas feitas columbinas. 
Há música d´ arromba e danças tresmalhadas
Alegram-se foliões, p´ las praças e esplanadas. 

Ele há folias, carnavais, onde há de tudo,
E nada escapa às suas loucas perspicácias,
Esfarrapam-se as mágoas, esfola-se o entrudo
Tudo pra trás das costas, venham as audácias:
As tristezas não pagam dívidas, nem misérias,
Nada como a alegria… tudo o mais são lérias! 

Ele há Corsos e Corsos muito coloridos,
Cada um deles festivamente aparelhado,
E se alguns s´ apresentam muito divertidos
Há sempre um tal que é mais desavergonhado.
Não há terras sem Corsos e sem Carnavais
E não faltam idades nem feitios sensuais. 

Como tem graça ver crianças a foliar,
Como tem graça ver os jovens a curtir,
E muita graça tem idosos a dançar
Na ingénua máscara enfeitada de um sorrir.
E enquanto tal se passa o qu´ é que o mundo vê?
Carnaval d´ hora a hora sem mais nem porquê…

Um Carnaval em pé de guerra em todo o lado,
Na economia, na justiça e no parlamento,
A banca, a corrupção, passeiam de braço dado
E o próprio Estado já não tem assentamento.
A Escola, a Educação, o qu´ há para dizer?
As crenças e os valores, ninguém os pode ver!

Associações, Instituições e Religiões,
As Belas Artes, as Letras e as Culturas,
Pelo meio delas proliferam os foliões 
E nada os regenera das suas diabruras.
Quem deita a mão a tudo o que por cá se passa?
Será que o tempo cura toda a vinagraça?

Não há Corso como o Corso da Capital – 
Conhecido com o nome de Geringonça – 
Umas vezes certinho, outras de Carnaval,
Deixando por lá passar os “amigos da onça”…
Que se há-de fazer? O povo que lhe faça estudo
Para evitar que se transforme n´algum Entrudo! 

A triste Humanidade encontra-se enfadonha
Pois lá de cima, à falta de fiéis receitas, 
O Corso virou caos perdendo sua vergonha
Ficando os figurantes de almas contrafeitas. 
Ó povoléu, ó povo, ó lúcido varão,
Onde se encontra a vossa Alma e Coração? 

Perpassa, finalmente, o Corso das Palavras – 
Palavras, mais palavras, fétido gorjeio – 
Que o vento leva nas suas lufadas gradas:
De caretos e máscaras está o mundo cheio…
Resta-nos que um tal Corso seja democrático
À medida de um Mundo reles, mas fantástico! 

Frassino Machado 
JANELAS DA ALMA